Candidato do Avante diz que decidiu deixar a atuação exclusivamente classista para entrar de vez na política
A corrida por uma vaga na Câmara dos Deputados ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira, 2, durante a participação do candidato Coronel Mano (Avante) no programa Inove Notícias, da Cultura FM, com Kleber Alves. O candidato abriu o jogo sobre sua trajetória na Polícia Militar, as batalhas travadas pela categoria e os motivos que o levaram a disputar uma vaga de deputado federal.
Coronel Mano afirmou que sua trajetória política começou muito antes de colocar seu nome nas urnas. Segundo ele, desde o ano 2000 já participava de movimentos em defesa dos policiais militares e bombeiros, inicialmente motivado pelas condições salariais e de trabalho enfrentadas pela categoria. “Essa história de luta começa no ano 2000. A gente já via que algumas coisas erradas aconteciam dentro da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros e começou a se engajar na luta de classe”, disse.
O candidato relembrou o período em que ingressou como oficial e afirmou ter testemunhado policiais vivendo em condições que considerava incompatíveis com a responsabilidade de quem sai diariamente às ruas para proteger a população.
Segundo Coronel Mano, a realidade dos profissionais de segurança pública naquele período era marcada por baixos salários e dificuldades para garantir condições básicas de moradia e alimentação. “Eu via policiais militares morando com pouca dignidade, em quartos de vila com banheiro coletivo. Essas pessoas saíam para trabalhar para defender a dignidade da pessoa humana e não tinham a dignidade de ter um banheiro dentro da própria casa”, destacou.
O candidato atribuiu à mobilização da categoria parte das conquistas obtidas ao longo dos anos e lembrou movimentos que resultaram em melhorias salariais e nas promoções dos militares.
Coronel Mano destacou especialmente o período do governo Marcelo Déda, quando, segundo ele, Sergipe chegou a ter uma das melhores remunerações para policiais militares do país. “Em 2009 conseguimos a segunda melhor remuneração do Brasil. Pouca gente achava possível isso acontecer, porque Sergipe é um estado do Nordeste. E mudou muito a qualidade de vida do policial militar naquela época”, ressaltou.
Ele afirmou que profissionais de outros estados chegaram a procurar Sergipe para conhecer o modelo adotado na época.
A entrevista ganhou tom ainda mais contundente quando Coronel Mano relatou os conflitos enfrentados ao longo da carreira por sua atuação na defesa da categoria.
O candidato afirmou ter respondido a diferentes procedimentos administrativos dentro da corporação e relatou condenações na Justiça relacionadas a críticas dirigidas ao governo. “Eu respondi todo tipo de procedimento administrativo que existe na corporação. Graças a Deus, de todo esse procedimento a gente conseguiu escapar. Deus nos deu livramento de sabedoria”, disse.
Segundo ele, uma das condenações ocorreu em 2017 e resultou em um ano de detenção. Coronel Mano relacionou o episódio à sua atuação crítica enquanto militar da ativa.
Um dos pontos mais marcantes do relato foi a afirmação de que permaneceu durante 12 anos no posto de capitão, período muito superior ao interstício que, segundo ele, seria normalmente previsto. “Eu fiquei 12 anos como capitão e vi pessoas mais recrutas do que eu. Vi meus subordinados se tornarem meus superiores”, lamentou.
O candidato também relatou uma segunda condenação, de dois meses de detenção, relacionada à sua participação no movimento Polícia Unida e à atuação pública em defesa das reivindicações da categoria.
Diante dos conflitos entre a atuação classista e as limitações impostas aos militares da ativa, Coronel Mano afirmou que percebeu que precisaria buscar outro caminho para continuar defendendo a segurança pública. “É muito difícil você lutar fardado sendo um militar da ativa. Não dá para a gente continuar lutando fardado”, destacou.
Segundo ele, a candidatura passou a ser encarada como uma ferramenta para ampliar sua capacidade de atuação e defender mudanças estruturais na segurança pública. “Um mandato, além de legitimar o apoio de uma categoria e da sociedade, lhe dá uma certa imunidade para você poder trabalhar”, revelou.
Coronel Mano também relembrou sua primeira tentativa de entrar diretamente na política eleitoral, em 2018, quando chegou a ser colocado na disputa por uma vaga ao Senado e posteriormente passou à condição de suplente na chapa.
O candidato também citou a trajetória de Alessandro Vieira, que inicialmente havia se apresentado como candidato a deputado estadual e posteriormente teve seu nome fortalecido para disputar o Senado.
Outro capítulo destacado na entrevista foi a mobilização em torno do adicional de periculosidade dos profissionais de segurança pública. Coronel Mano lembrou que, em 2017, durante o governo Jackson Barreto, o benefício foi extinto.
Segundo ele, inicialmente a categoria não percebeu de imediato o impacto da medida porque não houve redução direta na remuneração, mas posteriormente passou a questionar a constitucionalidade da alteração.
Coronel Mano afirmou que, diante da falta de avanço nas negociações com o governo, a representação da categoria decidiu apoiar a oposição como estratégia para tentar recuperar o benefício. “A gente decidiu apoiar a oposição porque era o caminho que a gente via mais salutar para a concessão, o retorno da periculosidade. Então apoiamos o Valmir”, afirmou.
A entrevista expôs, assim, uma candidatura construída a partir de décadas de embates dentro da segurança pública e de uma promessa de levar para Brasília uma pauta que, segundo Coronel Mano, ultrapassa os interesses corporativos e envolve diretamente a qualidade do serviço prestado à sociedade.
Com discurso de confronto e baseado na experiência de quem afirma ter enfrentado punições, governos e disputas internas, o candidato do Avante tenta transformar sua trajetória na caserna em combustível para conquistar uma vaga na Câmara Federal.




